Pesquisa
Relacionamento sugar e exposição: entre a vitrine e o segredo
Há algo de paradoxal na maneira como o sugar dating aparece na internet. De um lado, virou assunto de reportagens, vídeos, perfis de influenciadores e debates sobre relacionamentos. De outro, quem participa dessas relações muitas vezes prefere não ser reconhecido, evita mostrar o rosto ou procura manter a atividade longe dos conhecidos. É como se o fenômeno estivesse sob os holofotes enquanto seus participantes tentam permanecer nas sombras.
Essa contradição é o ponto de partida da tese Platformed Sugar Dating: Gender, Class, and Boundaries in the Digital Intimacy Economy, de Megan Sawey, apresentada à Universidade Cornell em 2025. A pesquisadora investiga como plataformas digitais, meios de comunicação e participantes constroem esse universo. Um dos argumentos centrais é que a prática se tornou muito visível no discurso público, mas continua vulnerável à censura e às restrições das próprias plataformas, o que leva a uma busca crescente por discrição que nem sempre protege quem participa.
Conhecido, mas difícil de nomear
O sugar dating costuma ser apresentado como um estilo de relacionamento reconhecível: alguém oferece apoio financeiro ou benefícios materiais, e alguém oferece companhia em uma relação negociada. Mas essa descrição convive com interpretações muito diferentes. Para alguns, é uma modalidade de namoro; para outros, aproxima-se do trabalho sexual. Essa indefinição afeta a forma como os aplicativos se apresentam, quais perfis aceitam e que linguagem permitem.
Sawey observa que algumas plataformas procuram atrair o público sugar, mas evitam assumir publicamente essa associação, para não serem identificadas com uma prática controversa ou atraírem problemas regulatórios. O relacionamento é promovido de forma indireta, com palavras como "luxo", "sucesso" ou "estilo de vida", enquanto termos mais explícitos podem levar à moderação ou à suspensão de contas. Para quem usa esses serviços, o assunto é conhecido, mas nem sempre pode ser nomeado. A discrição deixa de ser só uma escolha pessoal e vira uma exigência do ambiente.
Homens e mulheres temem coisas diferentes
Muitos homens entrevistados mencionaram o receio de que amigos, familiares, colegas ou parceiras descobrissem sua participação. Alguns temiam pela reputação; outros, sobretudo em cidades menores, achavam difícil evitar o reconhecimento. Por isso, preferiam plataformas especializadas que permitiam esconder o perfil ou dispensar fotos.
Entre as mulheres, as preocupações se concentravam mais na segurança física e psicológica: assédio, violência e exploração. A reputação também importava, e uma participante temia que a descoberta do perfil prejudicasse seu futuro profissional, mas o risco à segurança apareceu com mais força. Algumas preferiam aplicativos comuns, como Tinder e Bumble, onde podiam avaliar melhor os possíveis parceiros e decidir quando revelar o interesse sugar. Nos aplicativos especializados, sentiam que se esperava delas mais exposição, como fotos do rosto e do corpo.
A discrição não é distribuída igualmente
Quem consegue ocultar o próprio perfil preserva sua reputação, mas pode deixar a outra pessoa com menos informações para saber com quem está falando. Uma entrevistada achava frustrante encontrar perfis masculinos quase vazios, justamente porque isso dificultava avaliar os riscos. O recurso que protege uma pessoa pode aumentar a incerteza para a outra.
O anonimato ficou mais frágil
Esconder o nome ou usar fotos diferentes das publicadas nas redes sociais já não garante anonimato. Participantes relataram preocupação com ferramentas de reconhecimento facial capazes de ligar imagens espalhadas pela internet. Uma foto publicada em um aplicativo pode, em certas circunstâncias, levar a outras imagens e a informações pessoais. A fronteira entre o perfil discreto e a identidade pública fica muito mais frágil.
Quem pode aparecer?
O maior problema talvez esteja no contraste entre a imagem pública do sugar dating e as condições concretas em que as pessoas tentam vivê-lo. A visibilidade torna o fenômeno familiar para milhões, mas não vem acompanhada de reconhecimento ou proteção. Quando os participantes precisam recorrer a códigos, omissões e estratégias de ocultação, podem ficar mais vulneráveis, porque têm menos apoio das plataformas se algo der errado.
Discrição não é o mesmo que vergonha, e exposição não é o mesmo que liberdade. Alguém pode querer preservar a privacidade sem rejeitar o próprio relacionamento, ou falar abertamente sobre a experiência sem querer que fotos, mensagens e dados circulem sem controle. O ponto não é escolher entre segredo e exposição, mas reconhecer que poder decidir o que revelar, e para quem, faz parte da segurança de qualquer relação.
A pesquisa foi feita nos Estados Unidos e não descreve necessariamente as experiências brasileiras. Ainda assim, deixa uma pergunta que vale para qualquer contexto conectado: quando a internet transforma uma prática íntima em assunto público, quem ganha o direito de aparecer, e quem precisa continuar escondido?
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