Análise
Quantos sugar daddies há no Brasil?
Nos últimos anos, o noticiário brasileiro passou a falar bastante sobre o "mundo sugar": milhões de sugar babies, centenas de milhares de sugar daddies e Brasília como uma das cidades com mais provedores de alta renda. São números que chamam atenção.
Esses dados costumam vir das próprias plataformas, a partir de suas bases de cadastro. Para ter outro ponto de referência, fizemos uma estimativa independente, com dados públicos, tentando responder a uma pergunta simples: quantos homens no Brasil teriam renda e disposição para ser sugar daddies?
O que dizem as plataformas
Uma plataforma sugar informa ter mais de 18 milhões de usuários cadastrados na América Latina e mais de 10 milhões de sugar babies só no Brasil. Outra fala em cerca de 619 mil sugar daddies no país, 136 mil deles em Brasília.
Os dados divulgados incluem também informações de renda. Segundo a segunda plataforma, 26% dos sugar daddies de Brasília têm patrimônio acima de R$ 10 milhões e 18% ganham mais de R$ 500 mil por mês. No Rio de Janeiro, a primeira plataforma contabiliza 181 mil sugar daddies, 85% deles com renda mensal acima de R$ 50 mil.
Para ter uma dimensão: 18% de 136 mil seriam cerca de 24 mil pessoas em Brasília com renda acima de R$ 6 milhões por ano, em uma cidade com menos de 3 milhões de habitantes.
O caso de Santa Catarina
Uma plataforma sugar divulgou que Santa Catarina reúne quase 2 milhões de usuários cadastrados, número que a imprensa apresentou como sinal de que o estado seria um dos principais polos do estilo de vida sugar. Isso equivaleria a cerca de um em cada quatro moradores do estado, contando crianças e idosos.
A mesma plataforma aponta 293 mil sugar daddies em Santa Catarina e 181 mil no Rio de Janeiro, que tem mais que o dobro da população. A comparação ajuda a perceber que esses totais medem cadastros acumulados, e não necessariamente pessoas que usam o serviço hoje.
Cadastro não é o mesmo que usuário ativo
Bases de cadastro tendem a crescer com o tempo, porque incluem contas antigas, inativas, duplicadas e de pessoas que entraram por curiosidade e não voltaram. Uma conta criada em 2016 pode continuar sendo contada em 2026. Isso vale para praticamente qualquer aplicativo de relacionamento, não só para os de sugar.
Além disso, são números internos das empresas, que não costumam passar por auditoria independente. Não quer dizer que estejam errados, mas que medem algo diferente de "quantas pessoas estão em um relacionamento sugar".
Uma estimativa com dados públicos
Em vez de contar cadastros, partimos de quem teria dinheiro para ser sugar daddy. Segundo dados da Receita Federal, cerca de 42 milhões de brasileiros declaram Imposto de Renda, e 14% deles ganham acima de R$ 200 mil por ano. Isso dá 5,88 milhões de pessoas.
Como a renda alta é mais concentrada entre homens, supomos que 60% desse grupo seja masculino: 3,53 milhões de homens. R$ 200 mil por ano, cerca de R$ 16,7 mil por mês, é um corte baixo para sustentar um arranjo sugar, então a base já é generosa.
Falta saber quantos desses homens estariam dispostos a entrar em um relacionamento sugar. Não existe pesquisa representativa sobre isso no Brasil. A referência mais próxima é um estudo acadêmico feito na Hungria com 836 participantes, no qual 8,3% declararam estar em um relacionamento sugar. Como a amostra foi recrutada pela internet, o resultado tende a ser alto. Mesmo assim, usamos uma faixa de 10% a 20%, acima do valor húngaro.
| Etapa | Valor |
|---|---|
| Declarantes de IR | 42 milhões |
| Com renda acima de R$ 200 mil/ano (14%) | 5,88 milhões |
| Homens (60%) | 3,53 milhões |
| Dispostos a ser sugar daddy (10% a 20%) | 350 mil a 700 mil |
Quantos são, afinal?
Nossa estimativa fica entre 350 mil e 700 mil sugar daddies no Brasil, e esse é um teto, não um ponto central. O corte de renda é baixo e a taxa de disposição está acima da encontrada no estudo de referência. O número de homens com renda para ser sugar daddies e que de fato são deve estar abaixo de 350 mil.
As duas contas medem coisas diferentes. Os números das plataformas mostram quantos cadastros elas acumularam ao longo dos anos; a nossa estimativa tenta medir quantos homens têm renda e disposição para um relacionamento sugar. Juntas, ajudam a entender melhor o tamanho real do universo sugar no Brasil.
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