Pesquisa
Relacionamento sugar é prostituição? O que dizem 48 mulheres que viveram um
Relacionamentos sugar costumam ser apresentados de forma bastante simplificada. De um lado, a imagem da jovem que procura deliberadamente um homem rico para obter dinheiro e presentes. Do outro, histórias de mulheres exploradas ou coagidas. O artigo Sugaring as a Deviant Career: Modes of Entering Sugar Relationships and Social Stigmas, da socióloga Maren T. Scull, baseado em 48 entrevistas com mulheres que tinham ou já haviam tido relacionamentos sugar, mostra que a realidade é bem mais variada.
A pesquisa procurou entender como essas mulheres entraram nesses relacionamentos e como lidavam com o julgamento das outras pessoas.
Três formas de entrar
O estudo classificou as formas de entrada em três categorias: entrada gradual ou acidental (o que a autora chama de drifting), decisão consciente e entrada defensiva, associada à coerção.
A mais comum foi justamente a menos parecida com o estereótipo. 58% das entrevistadas não estavam procurando um relacionamento sugar quando entraram nele. Encontraram alguém que lhes fez uma proposta ou perceberam, aos poucos, que uma relação já existente estava assumindo esse formato. Algumas conheceram o homem no trabalho; outras foram contratadas inicialmente para outro tipo de atividade; algumas o encontraram em sites que nem eram voltados para relacionamentos sugar. Houve também quem já conhecesse o homem antes de a relação ganhar esse caráter.
Para outras, a decisão foi deliberada: 40% entraram conscientemente nesse tipo de relacionamento. Algumas conheceram o conceito por amigas; outras pela televisão ou pela internet. Depois disso, passaram a procurar ativamente um parceiro. A entrada defensiva, ligada à coerção, apareceu nos casos restantes.
Não existe uma única motivação
Dinheiro e benefícios materiais são, sim, uma parte importante da explicação, mas não a única. A partir da literatura sobre o tema, o artigo menciona outros motivos associados à busca por relacionamentos sugar, como companhia, sexo, mentoria, amor, curiosidade e até tédio. Seria simplista imaginar que todas as mulheres entram nessas relações apenas para conseguir dinheiro.
Nem toda relação sugar envolve sexo
Um dado particularmente interessante: cerca de 60% das participantes haviam tido algum tipo de interação sexual com o parceiro. Ou seja, uma parcela considerável não relatou nenhuma. Esse dado ajuda a entender uma das principais questões discutidas no artigo.
Sugar é prostituição?
As próprias entrevistadas não tinham uma resposta única. Algumas consideravam que eram atividades completamente diferentes: para elas, carinho, companhia, intimidade, amizade e uma relação que dura meses ou anos tornavam o relacionamento diferente de uma simples transação sexual.
Outras eram bem diretas ao afirmar que, em certos casos, não havia diferença significativa. Se existe uma troca direta de dinheiro por sexo, argumentavam, chamar a relação de sugar não muda sua natureza. Uma participante chegou a dizer que o nome pouco importava: se a atividade é prostituição, não haveria razão para escondê-la atrás de outro termo.
A conclusão de Scull é que não existe uma fronteira perfeitamente definida entre sugar e prostituição. Há relacionamentos em que o componente sexual praticamente não existe; outros combinam sexo, afeto, companhia e apoio financeiro; e há situações que funcionam essencialmente como transação sexual, apenas usando a linguagem e os mecanismos do mundo sugar.
Um nome para muitas relações
Isso ajuda a explicar por que o próprio termo sugar é tão controverso. Algumas mulheres usam a expressão sugar baby justamente para se distanciar do estigma associado à prostituição. Falar em "presente", "mesada", "companhia", "relacionamento" ou "mentoria" produz uma descrição diferente da relação, mesmo quando há dinheiro e sexo envolvidos. O artigo interpreta isso como uma forma de administrar o estigma social.
Talvez "sugar" não seja o melhor nome para esse universo. O termo dá a impressão de uma categoria claramente definida, quando a pesquisa mostra o contrário: há relações só de companhia e apoio financeiro, outras com sexo, outras com forte dimensão afetiva e algumas em que a diferença em relação à prostituição é realmente difícil de estabelecer.
Mais do que decidir se todo relacionamento sugar é ou não prostituição, o estudo mostra que as relações são mais variadas do que os rótulos sugerem. Talvez esse seja o principal problema da palavra sugar: ela tenta dar um nome único a relações que, na prática, podem assumir formas bem diferentes.
E o que diz a lei brasileira?
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