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Relacionamento sugar na África do Sul e no Brasil: sexo, afeto e consumo

SB Equipe Sugar Brasil · Atualizado em 2 de outubro de 2026 · 4 min de leitura

Quando alguém recebe um dinheiro inesperado e diz que foi "abençoado", ou brinca que outra pessoa o "abençoou" com um presente, talvez esteja mais perto do universo sugar do que imagina. Na África do Sul, a palavra blesser designa homens que oferecem dinheiro, presentes e outros benefícios materiais a mulheres mais jovens com quem mantêm relações afetivo-sexuais. A ideia aparece até nas redes sociais: jovens publicavam fotos de presentes de luxo recebidos dos parceiros, com referências a uma vida "abençoada". Uma bênção que pode incluir bolsas, roupas, viagens e uma conta bancária mais confortável.

É esse universo que Thais Henriques Tiriba explora no artigo Sugar relationships: sexo, afeto e consumo na África do Sul e no Brasil, publicado em 2019 na Revista Estudos Feministas. A pesquisadora observa como esses relacionamentos são representados na África do Sul e aproxima esse debate da produção acadêmica brasileira. Não é uma comparação direta entre os dois países, mas um diálogo entre pesquisas que fazem a mesma pergunta: o que acontece quando dinheiro, sexo e afeto se encontram em uma mesma relação?

Quem são os blessers

Na África do Sul, o blesser é uma espécie de versão contemporânea do sugar daddy: um homem com maior poder aquisitivo que oferece dinheiro, presentes ou outras vantagens a uma mulher mais jovem. O fenômeno ganhou visibilidade na imprensa e nas redes sociais, e as reportagens frequentemente o associam à exploração de meninas, à gravidez na adolescência e à transmissão do HIV. Autoridades, lideranças religiosas e organizações políticas passaram a discutir a prática, muitas vezes em tom de alerta.

Mas toda relação desse tipo pode ser resumida à história de um homem predador e uma mulher enganada? Tiriba não ignora os riscos, sobretudo as desigualdades que podem dificultar a negociação do uso de preservativos ou a recusa de certas exigências. Ao mesmo tempo, chama atenção para a variedade desses arranjos e para a importância de considerar como as próprias mulheres compreendem suas escolhas.

Dinheiro, sexo e afeto não vivem separados

Um ponto central da discussão é que dinheiro, sexo e afeto não aparecem necessariamente em compartimentos separados. Um presente pode ser uma demonstração de cuidado; o apoio financeiro pode fazer parte de uma relação que também envolve intimidade, companhia e compromisso. Isso não significa que toda troca seja justa, nem que as diferenças de poder desapareçam. Significa que a presença do dinheiro, sozinha, não explica tudo o que acontece entre duas pessoas.

O contexto sul-africano

O cenário ajuda a entender por que esses relacionamentos ganham espaço: desemprego, desigualdade e mudanças nas expectativas em torno do casamento. O artigo menciona, por exemplo, o lobolo, prestação matrimonial tradicionalmente paga à família da noiva. Quando as condições econômicas dificultam essas trocas, outras formas de vínculo e de circulação de recursos podem surgir.

E o Brasil?

Tiriba aproxima o tema de pesquisas brasileiras sobre mercados sexuais, turismo, mobilidade e relações entre dinheiro e intimidade. Essa aproximação questiona a ideia de que o sexo transacional seria restrito a certos países ou grupos sociais. A autora alerta para o risco de olhar para comunidades pobres e africanas como exóticas, como se a relação entre sexualidade e dinheiro fosse exclusiva desses lugares.

Outro aspecto é a forma como as mulheres narram esses relacionamentos. Algumas buscam acesso a bens de consumo, experiências, status ou mobilidade social. Nas redes, expressões como "estilo de vida sugar", "It girl" e "namoro empoderado" ajudam a construir essas escolhas como parte de um projeto pessoal. Mas essa linguagem não apaga as desigualdades de gênero, classe e raça que atravessam as relações.

Nem só exploração, nem só empoderamento

A discussão não precisa caber em duas categorias. Um relacionamento pode envolver desejo, interesse, cuidado, consumo e diferenças de poder ao mesmo tempo. As proporções variam, assim como as expectativas de cada pessoa. Para entender essas relações, é preciso olhar para o contexto, para as negociações e para os significados que os próprios participantes dão ao que oferecem e recebem.

Talvez a pergunta mais interessante não seja se uma relação sugar é, por definição, uma coisa ou outra, e sim o que está sendo trocado, como essa troca acontece e o que cada pessoa espera dela. Afinal, até uma bênção pode vir acompanhada de expectativas.

Como o dinheiro convive com a intimidade?

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